Mas, na realidade, Ray Charles canta seu desespero pessoal, que se amplia de formas múltiplas na população negra dos Estados Unidos, até tornar-se um autêntico drama coletivo. Uma de suas canções fala do craying time, o bíblico tempo de chorar que emerge com freqüência na miserável existência dos negros americanos. É dentro dessa perspectiva que se pode compreender porque certos ímpetos de arrogância de Ray Charles costumam-se apagar num sorriso alarmado e suplicante, num grito surdo que machuca o coração.
Assim é Ray Charles, depois que os anos transformaram sua raiva em resignação. Mas as feridas, muito profundas, não cicatrizaram; e sobrevém uma vontade incontrolável de atirá-las na cara da Humanidade.
Os momentos explosivos, que emocionam o público e causam sérias preocupações aos empresários, parecem apenas uma imagem virtual do passado. O mito, no entanto, permanece intacto aos olhos do grande público, acostumado a sentir fascínio desse negro cego que se agitas no teclado do piano. Há certas passagens na vida de Ray Charles que se referem à sua infância, que permanecem nebulosas.
Leonard Feather, em sua célebre Encyclopedia Of Jazz, registra o nascimento de Ray Charles Robinson, em Albany (Geoórgia), no dia 23 de setembro de 1932, mas supõe-se que ele tenha nascido alguns anos antes.O infortúnio atingiu Ray Charles e sua família com a repentina de desconcertante morte de George, seu irmão mais velho, que caiu numa tina de água quando os dois brincavam. Ray tentou retira-lo, mas não conseguiu e o irmão afogou-se.
Posteriormente, em 1936, depois que os Robinson se transferiram para Greenville, na Flórida, sobreveio à família mais uma tragédia: o pequeno Ray Charles foi acometido por uma enfermidade infantil, provavelmente rubéola. Passada a febre sua visão começou a enfraquecer. Os pais procuraram socorre-lo, mas os médicos eram brancos e nenhum deles aceitou o caso. Ray Charles ficou cego. A última imagem de que se recorda é de sua mãe chorando, e diz que não procura reter na mente lembranças daquela época. No entanto ficaram gravadas em sua memória as palavras de seus pais: “Um cego não é tolo, nem um vadio”. E continuaram a tratá-lo como um menino normal. Foi convivendo com outras crianças que Ray Charles teve que suportar as primeiras brincadeiras humilhantes e cruéis.
Os pais matricularam-no numa escola para cegos em St. Augustine (Flórida), e foi aí que Ray Charles aprendeu tocar piano pelo método Braile. Foi nessa escola que captou pela primeira vez o sentido maldito atribuído em sua terra á palavra “negro”. Em decorrência dessa sensibilidade para perceber a descriminação, o piano tornou-se seu melhor companheiro. Sentia-se magoado quando os meninos brancos obrigavam-no a abandonar o teclado. Sua professora ensinou-lhe os clássicos (Mozart, Bach, Beethoven e Chopin) e permitia que uma vez ou outra tocasse um pouco de música negra: blues, jazz. Boogie e os hinos que ele tinha ouvido nos cultos dominicais. Foi nessa época que um velho clarinetista.
Entre um uísque e outro, iniciou-o nesse instrumento; em seguida Ray Charles aprendeu algumas posições de guitarra e dedicou-se ao sax-alto, único instrumento, além do piano, que até pouco tempo atrás ele se aventurava a tocar em seus concertos. Era tão intensa a sua paixão pela musica que passava os dias numa pequena loja onde se vendiam discos e partituras.
Órfão dos pais com apenas dezessete anos, Ray iniciou-se no uso de entorpecentes e decide então jamais de recorrer às drogas. Certa vez, preso pelo porte e uso de tóxico, justificou-se perante o tribunal com o argumento que representava o drama de sua vida: “Sou cego desde os seis anos de idade. Vivo sozinho nas trevas. Tentei como pude encontrar um pouco de luz... e talvez de forma errada. Ajudem-me, peço-lhes somente isso”. Os jurados se comoveram e ele obteve a absolvição. O início de sua carreira foi idêntico ao de numerosos outros jazzistas.
Após a morte doa pais, Ray transferiu-se para Jacksonville, passando a se apresentar em locais de baixa categoria. Pouco tempo depois consegui formar um pequeno conjunto, que se especializou em imitar o então popularíssimo Louis Jordan. Foi com essa experiência que Ray Charles mudou-se, em 1948, para a costa oeste dos Estados Unidos, estabelecendo-se em Seattle, no Estado de Washington. Pouco tempo depois seu nome e o do seu conjunto - Maxim Trio –começaram a se projetar. O líder do trio que se exibia ao piano e ao saxofone (seguindo um costume da época), costumava cantar um estribilho para cada canção. Nasceu assim o cantor Ray Charles. Nesse momento não imitava mais Jordan, mas sim o refinado Nat King Cole, que ganhava muito dinheiro.
Graças ao sucesso alcançado, o Maxim Trio tornou-se o primeiro conjunto negro a ter um programa exclusivo na televisão do noroeste dos estados Unidos. Não foram somente as razões financeiras que levaram Ray Charles a imitar Nat King Cole; Havia também uma preocupação artística nesse procedimento. Para ele, Nat representava o mais feliz exemplo de um terceiro estilo na música negra norte-americanas, diferentes dos bizarros recursos utilizados pelos cantores de bares noturnos, bem como das ousadas técnicas de beboppers, que justamente no final dos anos de 1940 viviam sua época de ouro, A seu modo Nat King Cole oferece ao seu público uma música refinada, mas não melosa, na qual o sentimento negro não era depreciado nem omitido.
Lançava assim a base da música soul. Em 1949, depois de trabalhar em várias orquestras de erhythm&bluees de música de baile, e de integrar, por pequenos períodos, os grupos de Lowell Fulson e de Bumps Blackwell, Ray Charles foi residir em Los Ângeles, onde o Maxim trio estreou no mundo do disco. Sob a etiqueta de gravadora Swingtime, deixou-se de falar em Ray Charles Robinson, substituído por Ray Charles apenas, e o Maxim Trio deu origem a Ray Charles Trio. Beneficiado pelos préstimos, Ray Charles formou sua própria orquestra, na qual figuravam o baterista Teddy Bucker e o saxofonista Marshal Royal. Data dessa época Baby let me hold Your Hand Oh! Baby, um dos grandes sucessos do rhythm&blues e a música que consagrou Ray Charles. A partir daí, Los Angeles tornou-se um espaço limitado para as suas atividades artísticas. Esse obstáculo deixou de existir em 1952, quando Ray firmou contrato com a Atlantic, se transferido para New York.
Nessa gravadora, Ray Charles permaneceu ao longo da década de 1950, ou seja, durante sua fase de maior criatividade. Paralelamente ao sucesso da soul music, os anos 50 foram para a evolução do jazz os momentos de afirmação do hard bop, um estilo que procurava transformar a proposta de Charlie Parker e seus companheiros em algo mais vigoroso e imediato, mesmo que o resultado alcançado fosse menos genial. Foi também entre essa geração de boppers que começou a surgir um movimento de volta ás raízes da música negra, processando-se a reavaliação de certas formas de expressão popular.
Era uma postura que se afirmava também fora do ambiente do jazz: ampliava-se a ação social do conjunto dos homens de cor. Para eles, as raízes não constituíam uma marca vergonhosa, mas autêntico patrimônio cultural que devia ser preservado. Essa retomada da tradição negra, abrangendo os blues, os cânticos religiosos e as reminiscências das worksongs e dos field hollers, fez com que o hard bop fosse também chamado de soul music. Ao mesmo tempo, a própria palavra “soul” tornou-se uma espécie de expressão usada pela comunidade negra para nomear aspectos de seu modo de vida ou para ostentar orgulhosamente sua tradição cultural. Exemplo eloqüente dessa linguagem sentimental e valorativa era a expressão soul brother (“irmão negro”, ou “irmão de alma”), símbolo da confraternização dos homens de cor. É nos limites dessa consciência cultural negra que se situa a criação musical de Ray Charles. É patente em suas canções e em sua forma de cantar a influência do gospel e demais cânticos religiosos.
Nesses matizes da música negra se inspiram, posyteriomente, oos irmãos Julian e Nat Adderley.A memória dois cânticos ancestrais negros e dos hinos religiosos permeia a música de Ray Charlwes naq modulação de sua voz e também na relação do cantor com a orquestra e o coral, que o acompanham desde 1957., O diálogo que elçe desenvolve com o coro feminino representa uma herança do folclore africano que se perpetuo na América através das canções de trabalho dos escravos no sul dos Estados Unidos. Esse tratamento dado á música negra tradicional não agradou aos espíritos mais puristas. Tanto que o trabalho de Ray Charles foi duramente criticado pelo cantor de blues Big Bill Broonzy: “Ele trata o blues como se fosse algo de sagrado. Mescla blues com spírituais, e tenho a convicção de que isso é um erro. Deveria cantar na igreja”. A esse caldeamento foram acrescidos, depois, elementos da canção popular norte-americana, o que constituiu mais um ponto polêmico na música de Ray Charles, acusado por isso de fazer concessões ao esquema comercial. A produção de Ray Charles para a Atlantic foi numerosa. Entre as músicas que resistiram ao tempo destacam-se “The Midnight Hour, o célebre Herat-breaker,os blues Loosing Hasnd, Mess Arounde Feeling Sad, e A Fool for You e a famosa Hallelujah I Love Her So, ambas baseadas nas canções que Ray tinha ouvido um tio cantarolar. Convém lembrar Hard Times e Many Ann (1955) Black Coffee e The Genius (1956).
Escrito por tom Nilton às 11h13
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Dentro das características da canção popular, embora sejam criações esporádicas, podem-se registrar The Man I Love, I Surrender Dear er My Malancholy Baby. Essa tendência assumirá grandes dimensões a partir dos anos de 1960.Como artista contratado da Atlantic, Ray Charles sempre dispôs de companhia de renomados jazzmen para tocar e gravar: Oscar Pettiford, Cecil Payne, Joe Bridgewater e Davi Newman, saxofonista e arranjador. É significatoivo dessa fase o LP “Soul Brothers” figurando em primeiro plano Ray Charles (ao sax-alto) e Milton Jackson (ao piano), o vibrafonista que pertencia ao Modern Jazz Quartet.Tudo isso fazia de Ray Charles um nome consagrado no panorama da música negra norte-americana da década de 1950. Essa posição é confirmada pelo histórico concerto que ele deu o nome de Festival de Newport, no verão de 1958, onde se apresentou acompanhado de um sexteto e das Raeletts ( um coral feminino).
Seguiu-se o recital no Carnegie Hall, garantindo-lhe pleno sucesso artístico e financeiro. Depois dessas apresentações, seus discos passaram a ser consumidos no mundo inteiro. Ray gravava músicas para satisfazer todos os gostos desde a execução instrumental de bom nível até as canções melosas, caras ao departamento de marketing da Atlantic e amplamente aceitas pelo público menos exigente.A garantia de sucesso leva Ray Charles, em 1959, a gravar pela primeira vê acompanhado de grandes orquestras (uma dirigida por Ralph Burns e outra por seu velho amigo Quincy Jones), inserindo em seu primeiro repertório What’d I Say, Yes Indeeed e Let The Good Time Roll. Com essa novidade ele se desligou da Atlantic para se tornar astro da poderosa ABC-Paramount. Foi com esse novo contrato que sua música passou a refletir em profundidade os apelos e as necessidades do esquema comercial da gravadora.
Em obediência a razões de mercado, The Genius trocou o velho blues e a tonalidade do spirituais para se dedicar cada vez mais a um repertório baseado nos clássicos populares de todos os tempos, Sua voz pouco refinada, seu e timbre ferruginoso, sua predileção pelos contrastes entre o falsete e o grave davam a essas canções uma interpretação especial. É o caso típico de Geórgia On My Mind, um meloso slow fox de Carmichael que Ray gravou logo depois de ingressar na ABC_Paramouind.
A interpretação vigorosa e sofrida, recordando a infância passada na Geórgia, fez da canção um sucesso internacional, obrigando Ray Charles a mantê-la sempre em seu repertório.Geógia On My Mind não é, no entanto, o único grande sucesso obtido nessa época por Ray. Bem servido por arranjadores talentosos (Ralph Burns, Marty Paich, Sid Feler e Gerald Wilson), ligou seu nome a Ruby, Moon Over Miami, Unchain My Heart, Hit The Road Jack, I Can’t Stop Loving You, Oh Lonesome Me, e ao famoso Ol’Man River ( interpretado como se fosse um blues). Em todas essas gravações constata-se a presença de uma orquestra de cordas – às vezes acompanhada de um naipe de instrumento de sopro – quase sempre derramada em arranjos cheios de sentimentalismo.
Mesmo abalada por esse fundo orvalhado, a voz der Ray Charles consegue fascinar os ouvintes. Mas Sua Adesão à música de consumo fácil não foi absoluta. Em alguns momentos (sem dúvida esporádsicos), resurge o grande intérprete da melhor tradição da música negra amaericana. Foi com esse espírito que a Impulse – selo do ABC dedicado exclusivamente ao jazz – colocou numa gravação. Em companhia de Charles, nada menos de que a orquestra de Count Basie (sem a presença de seu diretor).
Nos últimos tempos, The Genius continuou a aproveitar, adaptando a seu estilo a seu estilo, um grande número de canções. Gravou o clássico I Didn’t Know What Time It Was, Yesteday e Eleonor Rigby ( dois sucessos dos Beatles) e o animadíssimo Look What They’ve Done To My Song Yesterday, exe4ccutando com singular entusiasmo dramático, permaneceu durante certo tempo nas paradas de sucesso do mundo inteiro. Uma meta muito insólita para um músico que dez anos antes liderava a pesquisa da Down Beat, revista norte-americana especializada em jazz. Pode-se dizer que há muito tempo Ray Charles deixou de se interessar em ser um dos grandes do jazz, umas música que possivelmente nunca lhe pertenceu totalmente, mas que foi, sem dúvida, um dosa elementos básicos da soul music. Com isso não se pode negar, no entanto, que Ray tenha sido um dos maiores talentos da musica negra norte-americana. Elwe procurou, justamente, ao seu modo, encontrar um estilo negro para a música de consumo fácil, desde que fosse digno, até soberbo, e isento de servilismo. Hoje Ray Charles é um autêntico superstar, tem consciência disso e se comporta como tal. Após uma infância de miséria e desespero, e uma juventude enfrentando privações e sufocando amarguras para chegar ao sucesso, The Genius pode se dar ao luxo de ter caprichos.
Quem teve a ocasião de organizar-lhe um concertro geralmente não deseja repetir a experiência: Ray sabe o que quer, é genioso e, se sofre uma contrariedade, por pequena que seja não hesita em fazer escândalos nos camarins ou até mesmo em mandar às favas, repentinamente, o compromisso. Em outros momentos, entretanto, Ray Charles mostra-se cordial e parece até ser uma outra pessoa: declara-se profundamente religioso (traz sempre consigo uma bíblia com caracteres em braille) e debate amavelmente sobre vicissitudes humanas.Possui um jato particular no qual cabem cerca de trinta pessoas: componentes da orquestra, secretários, acompanhantes.
Assim que chega tranca-se no hotel – geralmente exige o melhor da região - do qual sai somente para os ensaios e para os concertos. Tem tudo aquilo que um pobre menino cego do sul teria desejado ter; e ainda mais: o avião, a mansão, as piscina, uma pequena gravadora (a Crossover Records) e duas editoras musicais. Quando não está viajando, leva a vida de um homem de negócios, rodeado por um grupo de secretários e colaboradores.
Uma vez Frank Sinatra que entende muito bem dessas coisas, disse:- Ray é o único, autêntico gênio do show business americano. Mas essa nova imagem de Ray Charles, de autêntico homem de negócios, refletiu irremediavelmente em sua música. O cantor argumenta que o luxo que o cerca não o satisfaz que dentro de si tem a miséria, o desespero, a raiva que procura extravasar, mas seus concertos o contradizem. Ray hoje parece ser um pouco o museu ambulante de si próprio.
O fascínio interior permaneceu inalterado: é sempre emocionante vê-lo chorar, gritar, rir, agitar-se freneticamente no teclado do piano, mas cada um dos seus concertos é idêntico ao outro. O programa é previsível. A primeira parte é dominada pela orquestra, que toca um jazz moderno, genérico, sem grandes recursos. Em seguida ele entra em cena, com um repertório no qual a feliz Geórgia On My Mind figura sempre em terceiro lugar, antecedendo outros números consagrados como Yesterday e What’d I Say. No final as Realetts entram ao lado de Ray para encerrar o espetáculo de uma forma altissonante, assegurando o sucesso. O verdadeiro The Genius, aquele que sabe transmitir arrepios, enxertando a dor na raiz do blues e dando ao piano uma forte energia rítmica, aparece quando se tem um pouco de sorte, por alguns minutos. Mas a emoção de vê-lo ou ouvi-lo permanece, pois Ray Charles, por pior que esteja, sabe imitar a si próprio muito bem.
Numa entrevista ele assim se expressou: ”Às vezes, quando meus secretários se aproximam para falar de negócios, voltam a minha memória as imagens que consegui reter antes de ficar cego: a Geórgia, as barracas dos negros, meus pais, meu irmão e a pobreza. E então descubro que esse é meu novo drama. Perdi a vista quando era uma criança, as únicas lembranças que ficaram foram a fome e a miséria. Não consegui ver o bem-estar; só pude tocá-lo”.
Escrito por tom Nilton às 11h11
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